Round 6 e o Inconsciente Coletivo: o que a série revela sobre nós?
- Aniervson Santos
- 3 de jul.
- 3 min de leitura

Uma análise psicanalítica da última temporada sob o olhar de quem escuta juventudes e corpos dissidentes
A terceira e última temporada de Round 6 chegou como quem fecha uma ferida aberta — mas não sem antes cutucar ainda mais o que já doía. A série, que estourou no mundo todo com sua crítica brutal às desigualdades sociais, não é apenas entretenimento violento. É, também, um espelho angustiante do mal-estar da nossa civilização.
Sob o olhar da psicanálise, Round 6 se mostra como uma metáfora do funcionamento psíquico em tempos de esgotamento coletivo. Não é à toa que ela tenha encontrado tanto eco em jovens e em pessoas LGBTQIAPN+: quem já precisou lutar para existir, reconhece de longe o cheiro da sobrevivência.
O jogo como repetição
Na psicanálise, falamos de repetição como um dos modos que o inconsciente encontra de lidar com traumas. Repetimos, muitas vezes sem saber, aquilo que nos feriu — não porque gostamos, mas porque ainda não conseguimos simbolizar a dor.
Em Round 6, os participantes voltam ao jogo mesmo depois de saberem que podem morrer. O que parece irracional ganha sentido quando pensamos que todos ali já viviam em estado de morte simbólica: endividados, excluídos, humilhados. O jogo oferece, paradoxalmente, a chance de dar algum sentido à existência. De tomar as rédeas, ainda que sob regras cruéis. Isso diz muito sobre a juventude atual, que vive uma lógica onde vencer é, muitas vezes, apenas conseguir pagar o aluguel do próximo mês.
Desejo, culpa e sobrevivência
Ao longo das temporadas, o desejo de vencer se confunde com a culpa por sobreviver. Quem passa pelas fases do jogo carrega não só o medo da morte, mas o peso de ter deixado outros para trás. O sujeito que sobrevive não é apenas herói — é também cúmplice.
Esse dilema nos atravessa, sobretudo quando falamos de pessoas LGBTQIAPN+ que enfrentam, cotidianamente, dinâmicas de exclusão familiar, violência institucional e apagamento simbólico. Round 6 escancara o quanto o desejo de viver é constantemente atravessado por culpa e vergonha. Como amar a si quando o mundo nos ensinou a nos odiar?
A ilusão da meritocracia
Um dos pontos mais perversos da série é sua crítica à falsa ideia de meritocracia. Todos jogam “em pé de igualdade”, mas as condições reais de vida nunca foram as mesmas. Isso ecoa diretamente nas vivências juvenis, especialmente para quem é periférico, racializado ou dissidente de gênero e sexualidade.
Na análise, é comum escutarmos o quanto essa lógica de "se esforçar para ser aceito" adoece. O sujeito passa a se culpar por não dar conta de tudo, mesmo quando o mundo nunca ofereceu as mesmas possibilidades. Em Round 6, o jogo simula escolha, mas tudo já está determinado: quem tem mais poder manipula as regras e assiste de camarote.
Violência como espetáculo: o que nos atrai?
Por que gostamos tanto de assistir uma série onde as pessoas morrem de formas tão cruéis? Talvez porque, ao ver o sofrimento do outro, entramos em contato com a nossa própria angústia — mas de forma deslocada, segura, controlada. A violência que assistimos em Round 6 é, em algum nível, a violência que suportamos em silêncio no dia a dia: nas relações familiares, nas escolas, nas redes sociais.
Para jovens LGBTQIAPN+, o espetáculo da violência também é familiar. O corpo dissidente sempre foi visto como algo a ser corrigido, silenciado ou exposto. A série nos incomoda porque nos reconhecemos — e reconhecer-se é o primeiro passo para transformar.
E agora, o que fica?
O fim da série deixa a sensação de que nada foi plenamente resolvido. E talvez esse seja o ponto: a vida não fecha ciclos com laços bonitos. Ela exige que a gente encare nossas dores, escolha (ou não) sair do jogo, e crie outras formas de existir.
Como psicanalista que escuta juventudes e corpos dissidentes, vejo em Round 6 uma provocação potente: o que estamos dispostos a fazer para manter nossa humanidade? Que jogo é esse que nos ensinaram a jogar? E, mais importante, como podemos desjogar?
Que essa temporada nos sirva não apenas como entretenimento, mas como convite. A escutar, a sentir, a repensar. Porque o jogo só termina quando a gente entende que sempre há outra saída — mesmo que o mundo insista em dizer que não.




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