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Amar é suportar a falta: uma análise psicanalítica sobre o amor

  • Foto do escritor: Aniervson Santos
    Aniervson Santos
  • 10 de out.
  • 3 min de leitura
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"Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer.

Jacques Lacan



O amor, talvez mais do que qualquer outro tema, sempre ocupou o imaginário humano. Cantado em músicas, retratado nas telas e vivido em intensidades variadas, ele é, ao mesmo tempo, aquilo que mais desejamos e o que mais nos causa dor.


Na psicanálise, o amor não é visto como um estado de completude ou de fusão, mas como um encontro entre faltas. Ana Suy — psicanalista brasileira que tem se dedicado a pensar o amor a partir do desejo, do inconsciente e da linguagem — quem nos lembra que amar é suportar a falta. Amar é reconhecer que o outro não vem para nos completar, mas para nos acompanhar naquilo que falta.


Vivemos uma época em que o amor se tornou uma performance. As redes sociais vendem a imagem de relacionamentos perfeitos, intensos e resolvidos, e nos fazem crer que o amor verdadeiro é aquele que elimina a solidão. Mas, na leitura psicanalítica, o amor não apaga o desamparo, ele apenas o torna compartilhável.


Quando alguém diz “eu te amo”, o que, na verdade, se anuncia é um pedido: “permanece comigo, mesmo sabendo que eu não sou tudo o que você precisa”. O amor, nesse sentido, exige coragem. Coragem para se aproximar sem possuir, para estar junto sem apagar o outro, e para desejar mesmo sabendo que o desejo nunca se satisfaz por completo.


O amor idealizado (aquele que promete “felizes para sempre”) é uma armadilha. Ele nega a falta, e por isso, também nega o desejo. O amor real, por outro lado, é feito de hiatos, de pequenas desilusões, de recomeços. É o amor que se constrói no cotidiano, no reconhecimento de que o outro é diferente e que, justamente por isso, é possível desejá-lo.


Na análise, aprendemos que o amor não é a cura da falta, mas uma forma de habitá-la com menos dor. É o espaço onde podemos nos autorizar a ser vulneráveis, a não saber, a nos aproximar sem garantias.


🧠 A frase de Lacan: “Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”


Essa citação famosa de Lacan parece paradoxal: como posso dar algo que eu mesmo não possuo, e ainda assim amar alguém que não me quer? É nesse enigma que se encontra uma parte essencial do amor psicanalítico:

• Dar o que não se tem: refere-se a oferecer ao outro algo mais profundo que qualquer capacidade concreta, como oferecer afeto, presença, desejo, vulnerabilidade. É dar aquilo que é impossível de possuir plenamente, dado que o desejo humano é sempre incompleto.

• A quem não o quer: porque o amor não assume garantias, nem correspondência ou reciprocidade. Amar não é um contrato de retorno, mas uma decisão de lançar-se na falta, de desejar mesmo frente ao risco de não ser amado de volta ou de não ser amado do jeito que se imaginava.


💬 Amor, desejo e risco: reflexões para nosso tempo


Quando levamos isso para a vida cotidiana, especialmente nas relações amorosas dos jovens:

• Muitos carregam a ilusão de que o amor vai curar a solidão, vai preencher algo que falta, vai dar sentido pleno. Essa expectativa coloca um peso enorme sobre as relações.

• A desilusão costuma surgir quando percebemos que as falhas do outro não preenchem as nossas, ou que o outro jamais será aquilo que projetamos.

• Para Ana Suy, essas desilusões não são “erros”, mas partes inevitáveis de amar bem: se aceitarmos a nossa vulnerabilidade e aceitarmos também que amar é arriscar.


🌱 Como a psicanálise pode nos ajudar

• Vivenciar o amor com mais autenticidade, resistindo ao mito da completude: aceitar que falta algo, que há imperfeições.

• Identificar os próprios desejos: muitas vezes repetimos padrões aprendidos, idealizamos o amor com base nas histórias da família, da cultura, da mídia.

• Aprender a lidar com a rejeição, com a falta de retorno, com o desconforto, não como falha absoluta, mas como parte do percurso afetivo e do crescimento subjetivo.



Para refletir


Amar talvez não seja completar.

Amar pode ser o risco de se expor ao vazio, de dar aquilo que não está resolvido, de desejar mesmo sem garantia.

E é nesse risco que se encontra a beleza mais autêntica do amor.

Amar, enfim, é suportar o que não se pode preencher e ainda assim, escolher permanecer.


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© 2025 por Aniervson Santos, Psicanalista Clínico.

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